Homenageado

Darcy Ribeiro: Viva o grande Educador brasileiro!

César Nunes (UNICAMP)

Quando eu era jovem e cultivava tantos sonhos (ainda cultivo!), um deles era o de conhecer Darcy Ribeiro. Ele era uma lenda entre nós estudantes. Todos queriam saber desse brasileiro que juntava a erudição, a lucidez, a ternura e a sensibilidade, todos numa pessoa só, íntegra e agradável! Naquela idade, uma das coisas que mais me encantava em Darcy Ribeiro, isto é, em sua biografia, era ter construído, na Universidade de Brasília, intencionalmente, um lugar para os estudantes poderem encontrar-se, voltado para o por do sol e o  nascer da lua, local que existe até hoje e se chama “Beijódromo”, pois era um lugar para se admirar a vida e para namorar! Como poderia alguém ter pensado nisso? Só alguém com a grandeza de coração e a coragem do realizador, como ele, o brasileiro Darcy Ribeiro! Depois tive a alegria de conhecer e conviver com Darcy Ribeiro, ao menos um pouquinho.

 

Eu sempre buscava frases bonitas para homenagear as pessoas que eu admirava, quando era convocado a fazer tais homenagens na Academia Lítero-Cultural São Pio X. Destacava aqui e acolá alguma das virtudes desse homenageado. Mas, nesse momento, me fogem as convenções todas, sinto-me sem palavras, pela grandeza de Darcy Ribeiro, sobretudo nesse tempo de pessoas tão apequenadas e medíocres que se apresentam despudoradamente na vida pública e na esfera da Educação.

 

No entanto, veio-me à memória uma frase, extraída do ideário latino-americano, que dizia: “Há homens que lutam um dia, e são bons! Há homens que lutam anos e anos, esses são melhores! Mas há homens que lutam a vida toda; esses são os imprescindíveis”. Não sei quem é o autor, para dar-lhe os devidos créditos. Mas sei que essa frase revela precisamente tudo o que eu penso de Darcy Ribeiro!

 

O 3º CONAEDU tem a honra de escolher homenagear nesse simbólico ano de 2017 o educador brasileiro Darcy Ribeiro. Celebramos nesse ano os 20 anos de sua morte, ocorrida em fevereiro de 1997. Mas homens como Darcy não morrem jamais! Mas, para que sua memória permaneça entre nós, pelo muito amor e pela sensível lucidez que teve em sua vida, dedicamos essa homenagem a Darcy Ribeiro.

 

Quando eleito para a Academia Brasileira e Letras, em 1988, no seu discurso de posse, já doente, mas sempre com as marcas inalienáveis de sua personalidade, a saber, o bom humor, a lucidez reflexiva e a originalidade expositiva, ele dizia:

 

Confesso que me dá certo tremor d’alma o pensamento inevitável de que, com uns meses, uns anos mais, algum sucessor meu, também vergando nossa veste talar, aqui estará, hirto, no cumprimento do mesmo rito para me recordar. Vendo projetivamente a fila infindável deles, que se sucederão, me louvando, até o fim do mundo, antecipo aqui meu agradecimento a todos. Muito obrigado. Estou certo de que alguém, neste resto de século, falará de mim, lendo uma página, página e meia. Os seguintes menos e menos. Só espero que nenhum falte ao sacro dever de enunciar meu nome. Nisto consistirá minha imortalidade.

 

Pois bem, comecemos por esse dever: DARCY RIBEIRO (1922-1997), educador brasileiro! Receba nossa sincera homenagem!

Mineiro de Montes Claros, nascido em 1922, estudou Antropologia na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Seus pais queriam que fosse médico, mas ele decidiu pela área das Ciências Sociais e Humanas. Como outro mineiro, que testemunhava que em Minas Gerais havia um anjo de pernas tortas a dizer, para alguns: vai ser gauche na vida! Darcy recebeu esse anjo!

 

Darcy Ribeiro marcou profundamente todos os lugares, os campos e áreas de atuação por onde passou: sempre foi um homem de ideias e de ações. Juntava, em sua pessoa, a clareza teórica, a lucidez política, com a generosidade e a tenacidade da ação, a coragem da decisão, a qualidade de criar, inventar, realizar, fazer e construir. Essa é sua marca mais profunda, grande no amor, grande nas teorias e grande na ação educacional e política! Eu confesso que me sinto pequeno diante de sua vida!

 

Como antropólogo escreveu sobre as culturas indígenas e recuperou, no Brasil, a causa dos índios e de suas identidades culturais, territoriais, sociais e grupais. Estudou as populações de toda a América Latina e criou categorias de compreensão do impacto violento do processo de conquista e submissão dos povos ameríndios pelos europeus, com originalidade investigativa, vigor analítico e discernimento interpretativo.

 

Acompanhou o Marechal Rondon e fez avançar sua causa, estudando os índios do Brasil Central e da região amazônica, entre os anos de 1946 a 1956. Suas ações, estudos e pesquisa deram origem ao Serviço de Proteção ao Índio, mais tarde transformado em FUNAI. Foi dele o projeto de demarcação da Reserva Indígena do Xingu (1961), modelo de intervenção e de política de preservação do território, da cultura e do modo de vida dos índios no Brasil.

 

Acompanhou Anísio Teixeira e encantou-se, a partir dele, com a Educação. Foi criador, junto a esse eminente educador baiano, da Universidade de Brasília (UnB), sendo também seu primeiro Reitor, depois barbaramente alijado pelos militares que desfiguraram o projeto da Universidade voltada para pensar as causas e os projetos de desenvolvimento do Brasil, chamado por ele de “a universidade necessária”. Criou também a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), centrada na ideia de constituir uma universidade com a preocupação de formação inicial e continuada de professores e educadores. Hoje essa universidade leva seu nome!

 

Foi Ministro da Educação no breve hiato político do governo parlamentarista de João Goulart (18/09/1962 a 24/01/1963)  e atuou como Chefe da Casa Civil do mesmo governo entre 18/06/1963 a 31/03/1964 quando se consolidaria o Golpe Militar de 1964 destituindo um governo legítimo pelo regime da força e da exceção, fazendo o “que a força sempre faz” – destruição e dor. Darcy Ribeiro, como tantos outros brasileiros, foi exilado.

 

Mas, no exílio, além da saudade e das dores todas de ser obrigado a viver fora de sua terra, Darcy Ribeiro não parou de sonhar e de intervir no mundo. Foi chamado para planejar e para organizar projetos de Educação, de Antropologia e de Formação de Professores em muitos países, tais como Uruguai, Costa Rica, Peru e Argélia, entre outros.

 

De volta ao Brasil com a conquista da redemocratização, após a falência cabal da ditadura militar, Darcy Ribeiro implementaria, no primeiro governo de  Leonel Brizola como Governador do Rio de Janeiro ( 1983-1987) os originais CIEP’s ( Centro Integrado de Ensino Público), um grandioso e corajoso projeto de organização de escolas e de espaços pedagógicos voltados para o acolhimento, a formação e a educação de crianças e jovens em tempo integral, articulando atividades educacionais, recreativas, culturais e assistenciais a todos. Candidato a Governador do Rio em 1986, acabaria por perder as eleições, e seu adversário Moreira Franco destrói por inanição seu projeto dos CIEP’s, mantendo a triste sina dos governos autoritários e sem projeto.

 

Eleito Senador pelo Rio de Janeiro (RJ) em 1991, Darcy Ribeiro mantém a inabalável convicção de que a maior luta a ser empreendida no Brasil é a luta pela Educação. Planeja a criação, com Oscar Niemayer, do Memorial da América Latina em São Paulo e, em 1996, já acometido pelo câncer, oferece uma contraditória alternativa para a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, sancionada como Lei 9394/1996, que ainda hoje rege a legislação da Educação no Brasil. Seu testemunho final, num texto memorável, no qual define suas muitas “peles”, diz-se um homem de muitas peles, ela concluiria:

 

Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.

 

Amado e querido educador e Mestre Darcy Ribeiro, receba nossa admiração!

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